A diferença é o sabor 

                                                                            Por Gustavo T. Falleiros, jornalista 

  

Prefira orgânico. Orgânico é melhor. Não me refiro ao galináceo que ilustra a capa deste saboroso “Tudo novamente”, trabalho mais recente do violonista sete cordas Fernando César e do regional que o acompanha. O adjetivo tem sido usado a torto e a direito, mas os músicos sabem: soar “orgânico” é o que de melhor pode acontecer a uma gravação.   

  

Significa que a coisa está viva, que as partes se encaixam e se completam sem trucagens. Por trás dessa excelência, tem muito treino e domínio da linguagem – no caso, a do Choro. Tem muito companheirismo e confiança mútua. Tem escolha de repertório e horas de estúdio. Tem o timbre bonito da flauta, a mão boa do percussionista, arranjos caprichados e todo o acabamento da produção (assinada pelo próprio violonista). 

  

O somatório dos fatores, porém, não dá conta de explicar tudo. Realmente, existe uma “magiquinha” e nem adianta querer decifrá-la. O que dá para fazer é sublinhar certos aspectos que fazem de “Tudo novamente” um disco danado de bom. O primeiro a ser destacado é a combinação delicada de maturidade e frescor.  

  

Pois não falta experiência ao time de jovens instrumentistas arregimentado por Fernando César – um fenômeno bem brasiliense, alimentado pela Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello e pela Escola de Música de Brasília. Junior Ferreira (acordeão), Pedro Vasconcellos (cavaquinho), Thanise Silva (flauta), Valerinho Xavier (percussão) e mais os convidados Eduardo Belo (contrabaixo) e Vinícius Magalhães (violão de seis cordas) são, como se diz, prata da casa. 

  

Esse equilíbrio vale também para a escolha dos temas. A faixa-título é uma inédita de Alencar Sete Cordas (1951-2011), confiada a César em outros tempos. Entre os chorões pioneiros da capital federal, Alencar foi mestre, mas seu brilho como compositor merece ser reavaliado. Aí acontece a tal da “magiquinha”: a música do saudoso professor soa nova em folha aos ouvidos. 

  

“Maxixe do César” é outro presente, desta vez, ofertado pelo bandolinista Hamilton de Holanda, irmão de César. E que curioso! Essa, sim, pela estrutura, cairia bem às rodas “puristas”. Então, com toda propriedade, o sete cordas acrescenta um elo à corrente. Sua contribuição se chama “Rebento”, a classuda valsa que já havia dado o ar da graça em “3 por 4”, CD de 2010. Quando a bola é passada para a novíssima geração candanga, só temos boas surpresas com as composições de Rafael dos Anjos, Léo Benon e Tiago Tunes, entre outros.  

  

Por fim, importa dizer que “Tudo novamente” abraça sem pudor o regional como formação “clássica” de Choro. Na era do rádio, davam as cartas o violão, o cavaquinho e a percussão – em regra, fazendo a “cama” para instrumentos solistas, como a flauta e o acordeão. O ambiente era propício ao improviso e gente como Canhoto, Dino, Meira e Benedito Lacerda ajudava a expandir o vocabulário do choro em performances ao vivo. Assim foi até fins dos anos 1950.  

  

Estamos em 2017. O Choro é um tronco robusto para o qual convergem diversos ramos da música brasileira. Está vivo e bem-cuidado. "Tudo novamente" é um exemplar vistoso.